Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

O soldadinho do chumbo

O Verão está quente, mas a guerrilha entre PGR e Magistrados do Ministério Público já não me puxa a pena à escrita. O caso Freeport é uma estória interminável, há tantos que preferem o ponto e vírgula...


Nestes primeiros dias de Agosto, prefiro pensar na nossa eterna paixão educativa, e os caminhos tortos pela qual segue, sem que haja quem a ponha direita.

 

Eram 25 soldadinhos de chumbo perfeitos, nascidos da mesma colher de chumbo. Só o último saiu apenas com uma perna, colocado na forma em último lugar e o chumbo escasseou. Isto no conto infantil de Hans Christian Andersen. Porque na história da vida real, os nossos soldadinhos podem vir a deixar de ser de chumbo, haja o que houver, embora se adivinhe que muitos possam chegar à universidade ou à vida sem pernas para andar. A ministra da Educação é exemplar na escrita dedicada aos petizes, e sorri maternalmente para o eleitor. Segue, todavia, um rumo errático que serpenteia ao gosto das ventanias produzidas pelo feiticeiro de "O Soldadinho de Chumbo", e ameaça levar o ensino não à lareira para queima imediata, mas ao banho-maria.

 

As medidas recentes são prova deste sinuoso trilho. Salva a avaliação dos professores, mas já nada restando dela, segue-se a salvação do Estatuto do Aluno, de mãos dadas com o CDS-PP. Ver Paulo Portas regozijar-se com o regresso do quadro de honra, a disciplina e o mérito é de levar às lágrimas. Reze-se um terço logo ali na sala de aula, que a Lei da liberdade religiosa é para enfeitar o Diário da República, e na abertura do ano lectivo 2008/2009 surgiu a "esquerda benzida". Concordo, em tenra idade o estigma do chumbo não beneficia o processo de aprendizagem. E o estigma de ver sempre os mesmos colegas, em turmas de excessivos 35 ou 40 alunos, nos lugares cimeiros do quadro de honra? Aqueles que vivem em situações de maior equilíbrio familiar, afectivo, económico.

 

Recolocado o quadro de honra na sala de aula, admito que até ao 4.º ano do ensino básico o estigma vença a prova de sucesso na aprendizagem. Mas a passagem para o 5.º ano requer essa prova. Não podem transitar crianças de um ciclo de aprendizagem primário, onde conhecem apenas um professor e não distinguem "disciplinas" mas "matérias", para um quadro de ensino com 9 ou 10 professores e outras tantas disciplinas, um horário completo e complexo e várias salas de aula. E, sobretudo, não podemos edificar esta discussão sobre o sistema de educação que temos. É árido, desligado da realidade. É um ensino estático e pouco preparado para a recuperação dos alunos em qualquer ponto da dúzia de anos em que por lá circulam. Quando um aluno chegado ao ensino superior vê a leitura de um jornal como um exercício excêntrico, quando ignora a história do país, a gramática e a semântica, pensa-se de imediato que os 12 anos de ensino obrigatório os obrigou a pouco. Na edição de 4.ª feira do Diário Económico, enchi-me de orgulho ao ler a entrevista do Presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa, um médico dentista que voltou aos bancos da academia e foi meu (muito bom) aluno em 2009/10, constatar o facilitismo do sistema, renovado pelo Contrato de Confiança. E vi-me na circunstância de concordar com Veiga Simão: o fim dos chumbos não se decreta. Ou todos os nossos soldadinhos vão cair na lareira da vida, ardendo mesmo que de espingarda ao ombro.

publicado por linhadeconta às 10:00
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