Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Fogo posto - 2010/11

Começa Agosto, e deixa de haver vida para além do calor. Não se invoque a crise, a menor taxa de ocupação hoteleira nos Algarves, o calor de savana africana que atacou um Portugal ibérico.


As ruas ficam quase vazias e o trânsito transfere-se para outros poisos. E não há revisão constitucional que agite esta maré.

 

Só os incêndios dão um "Oi", e conquistam as aberturas dos noticiários. E ao olhar para o mapa de Portugal a arder, percebe-se com facilidade que no "ano lectivo" 2010/2011 os incêndios vão continuar a dominar a esfera noticiosa. Mas já não será eucalipto ou pinheiro a arder. Embora aqui e ali seja fácil adivinhar a "mão criminosa", e o predomínio será, de facto, do "fogo posto". O sistema político nacional andará a ferro e fogo. Quando Setembro chegar, serão precisas três ou quatro mãos para contar os "fogos": a proposta de revisão constitucional a dar entrada no Parlamento; o anúncio da (óbvia) recandidatura do professor Cavaco Silva; a proposta de Orçamento do Estado para 2011 a entrar na AR a 15 de Outubro; um PEC III; a execução orçamental; a campanha presidencial; a ameaça constante do vai-não-vai do PSD, que aguarda pelo próximo inquilino de Belém para fazer contas às eleições; as esquerdas no seu contínuo desencontro; Paulo Portas a realinhar estratégia para não morrer às mãos do carrasco liberal; o PS a pensar no amanhã; o (restante) PSD a pensar se o amanhã que adivinha vale a pena. Este novelo cheio de nós fará Portugal arder em lume brando, ou será fogo de labaredas altas que só pelo recurso aos meios aéreos se conseguirá controlar?

 

Quando José Sócrates deitou mão à ‘golden share' estadual na PT, para fazer recuar a Telefónica na aquisição da participação na Vivo, as demais esquerdas empolaram o resgate da "soberania nacional" e os comentadores apressaram-se a ver na manobra do governo um esgar político, de reunião dos portugueses em torno do que é nacional, logo bom. Já eu, também treinadora de bancada, apressei-me a comentar que a guinada governamental tinha o intuito puro de ceder espaço negocial à PT, para realinhar as tropas e negociar com a Telefónica o melhor cenário possível. Dito, e certo.

Quando olho para os focos de incêndio da temporada 2010/2011, vejo com clareza e sem fumo que turve o olhar e raciocínio o primeiro embate negocial da época: entra revisão constitucional, entra proposta de OE 2011, sai o quê? O PSD tem de emendar a mão do "fogo posto" em casa própria, porque não lembra a ninguém condensar o reportório liberal numa proposta de alteração à CRP e lançá-la a jogo quando o mercado de verão ainda está longe do fecho. O PS precisa de parceiros "orçamentais" para fazer passar o OE do próximo ano, e a teoria da má moeda vai fazer escola no final de 2010.

 

Com as presidenciais a decorrerem num especulativo campo de apostas, saia vitorioso o professor ou o poeta, o PSD não terá vida fácil. Não terá direito a eleições quando pretender. E até lá pode ser a mão que incendeia, criando os fogos que entender. Depois, a mão presidencial será forte.

 

Se Cavaco e Passos nunca caminharam ao mesmo ritmo, o desalinho será muito óbvio se o PR voltar a Belém. Se Alegre ganhar, Passos terá de rever o timbre.

 

Apesar de o político astuto ser aquele que nunca dorme, ou repousa com um olho aberto e outro fechado, recomenda-se aos nossos que descansem um pouco enquanto os soldados da paz actuam. Porque no rescaldo dos incêndios, vai regressar ao quotidiano um país de fogos postos.
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Marta Rebelo, Jurista

publicado por linhadeconta às 10:00
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