Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

“O Banqueiro Anarquista”

Desta grande crise que ainda experimentamos, dizia-se que sairia um “mundo novo”.


Mas bem dizia "O Banqueiro Anarquista", jantando com Pessoa em Janeiro de 1922, que empregar desejo e esforço na substituição das "ficções sociais" por outras é espúrio à melhoria do mundo, "porque é fazer uma perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma".

 

Pois em 2010 as ficções sociais são muitas, e as perturbações também. E por voltas que se dê, voltou a mesmice. Sempre achei que o regresso ao keynesianismo seria breve e sucedido por uma profunda imersão monetarista. Dito e feito, e não me tenho por profeta. A Europa unida, depois de considerar a fórmula do já deposto Gordon Brown infalível - nacionalizar a banca, estimular pelo público o desmotivado privado - regressou à patologia endémica mais perigosa do século XXI: o défice. Os EUA fizeram um caminho ligeiramente distinto e Obama tem sido "anarquista" q.b. Mas por cá, Jean Monnet, o pai fundador, deve chorar a evolução do seu projecto europeu. Conseguimos até a proeza de colocar Paul Krugman e Joseph Stiglitz, respeitabilíssimos economistas, de acordo. Coisa incomum, apesar da óbvia matriz de esquerda de ambos.

 

Entendem, estes senhores, que os "austeritaristas" estão a comprometer de modo ainda mais irremediável a economia europeia, ao considerar que o défice de 3% cura todos os males, quando é antes doença. Stiglitz afirma que cortar, com ou sem vontade, em investimentos de alta rentabilidade para melhorar os resultados de um número artificial, os 3%, "é um disparate" e pode liderar a Europa a nova recessão. Como diria "O Banqueiro Anarquista", os 3% não são senão uma «ficção social». krugman vai mais longe, dizendo que os cortes na despesa advogados pelos "austeritaristas" são cegos, reclamando que abdiquemos da criação de emprego e de riqueza a para satisfação pura dos «bond vigilantes», que precipitaram a crise das dívidas soberanas. Curioso: "primeiro disseram-nos para ignorar os fundamentos da economia e em seu lugar obedecer aos ditames dos mercados financeiros; agora é-nos dito para ignorar o que esses mercados dizem porque eles estão confusos" - conclui Krugman, com ironia.

 

A estrela da constelação da UEM, o PEC, peca fatalmente no segundo objectivo. Ainda ninguém conseguiu praticar estabilidade monetária e simultâneo crescimento económico. A Alemanha, "a austera", está a crescer porque ainda não deu início real à austeridade que proclama. E nós, periféricos europeus, obedecemos. Pelos escombros da mudança, Passos Coelho continua a insistir que a revisão constitucional é que é, a banca, nada stressada, ganha 7 M€ diários mas não empresta, o desemprego vai aos 10% e a opinião preocupa-se com a medida na troca revisão/OE 2011.

 

Como dizia "O Banqueiro Anarquista" à mesa de jantar, fez o seu dever para com o futuro, libertário de todos face às "ficções sociais", mas e ele? Ele, subjugou a "ficção dinheiro", enriquecendo sem olhar a meios ou práticas desleais. Afinal, destruir os capitalistas só leva o capital a mãos distintas. "Destrua, não os capitalistas, mas o capital; quantos capitalistas ficam?". Levantemo-nos todos desta mesa dos 3%.
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Marta Rebelo, Jurista

publicado por linhadeconta às 09:30
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