Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

“Apocalipse Now”

Por alguma razão Fernando Pessoa dizia de si próprio não ser impaciente nem comum.


O "homem de Massamá", de Mendes Bota, apareceu no Pontal sob a batuta da banalidade, numa versão B de "Quem tem medo de Virgínia Woolf?". Mas em estilo festivaleiro, como se impunha no calçadão da Quarteira. Afinal, era preciso "animar a malta", como disse o professor Marcelo.

 

Mas terminem as citações napoleónicas, que Passos Coelho já não está a enterrar-se sozinho. Tentou antes anunciar o armagedão: um "Apocalipse Now", com os quatro cavaleiros a anunciar o fim que só PPC poderá contrariar. O seu Cavalo Branco é indubitavelmente o OE para 2011, que ameaça não viabilizar se a afamada redução das deduções fiscais avançar e a despesa não for contida. O corte nas deduções - de facto um agravamento de imposto - é antónimo do ideário passista: quem escolhe o privado, é penalizado, não deduz a despesa ao seu IRS. Inaceitável! É verdade que esta semana foi oficializado o aumento de 546 M€ do tecto de despesa, financiado por poupanças de 2009. Teixeira Santos ainda não explicou esta transição de saldos... Mas o PSD nada conquistará cavalgando esta ameaça. Economistas da sua praça já lembraram a não debelada crise da dívida soberana, e o chumbo do OE seria tido pelas agências de ‘rating' como um péssimo sinal. O Comissário Europeu já veio apressar um acordo. E Sócrates seria prisioneiro num mar de ondas tsunamicas com Passos de agulha em punho, a furar os salva-vidas nacionais.

 

O Cavaleiro do Cavalo Vermelho ergueu a sua espada sobre a justiça e o Cavaleiro negro arrastou o colapso económico com um défice e uma dívida incomportáveis e o desemprego acima dos 10% e para estes, não há fórmula que não seja a magia liberal. E no quarto cavalo, a morte, que revela o Leviatã a engolir as suas vítimas seguem juntos Passos e Cavaco. É conhecida a repulsa do PR pelo hobbesiano Estado-leviatã. Passos Coelho quer "mudar", defende o Estado mínimo, já não o do cidadão-contribuinte mas o do cidadão-utilizador, sem redistribuição de riqueza que não seja pela via caritativa. As semelhanças não terminam: o "homem de Massamá" - sem qualquer preconceito geográfico e apenas por recurso à prosápia de Bota - é afinal um homem banal e aborrecido. Que acredita não ter cometido "um grande erro político até agora". Provavelmente, pedirá que o deixem trabalhar. Esborratada a imagem pela revisão constitucional - um buraco negro na escala do erro político - ficou à vista o anti-rebelde.

 

No calçadão da Quarteira, Passos Coelho pareceu querer para si o papel do Capitão Willard do "Apocalipse Now" de Francis Ford Copola, que deve ter revisto antes do Pontal e na sua casa de férias alugada, de "homem comum". Só que no filme, ao subir o rio para cumprir a missão de matar o Coronel Kurtz, Willard começa a reflectir, e chegado ao destino vê que Kurtz é afinal amado pelos nativos... Quem será o Kurtz de Passos? Será que ele sabe que no filme era representado pelo grande Brando, e que Martin Sheen - o Capitão Willard - teve um enfarte durante a rodagem que durou 3 anos, levando o realizador a ameaças múltiplas de suicídio?

 

Afinal, é só um filme. Deixem o homem trabalhar. E perceber porque é que houve anos sem festa do Pontal. E, já agora, descalçar a Bota.

publicado por linhadeconta às 10:00
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