Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

“Capitães da areia”

Em tempos supostamente “silly”, enche-se a mala de viagem e o saco de praia de literatura adiada nos tempos “smart”.


Há quem consiga interromper a realidade, mas esse exercício não me traz descanso. Peguei nos "Capitães da Areia", do grande Jorge Amado, e dei por mim a rir ante as semelhanças...

 

Aqui para o centro e norte do país, os incêndios grassam e as declarações ácidas chegam a ser incendiárias. Na "cidade alta", os casos são os suficientes para a jornada. Os "capitães da areia" fazem-se acompanhar de combustível noticioso e dão largas ao protesto contra a ordem. E se os personagens de Jorge Amado são arruaceiros de 15 anos que roubam aos abastados para dividir com os seus camaradas subnutridos e sobreviver, os nossos "capitães da areia" de Agosto têm em comum com as personagens, ao menos, o engenho.

 

Por razões conhecidas, o "perigoso inimigo da ordem estabelecida", o capitão organizador "Pedro Bala", só poderia ser Pinto da Costa. Chega a Lisboa, terra por si mal-amada, encabeçando uma lista de notáveis testemunhas de Carlos Queiroz no processo disciplinar que o opõe à FPF. O nosso "Pedro Bala" da ‘silly season' dispara: falando em abono de Queiroz, deixa no ar que este é um processo de intenções, de natureza política, pois por estes dias não se vai falar do caso Freeport, etc. Já o seleccionador veste bem a pele de "Sem Pernas", o ladrãozito franzino, coxo, agressivo e individualista, que se fazia passar por órfão desgraçadinho abrindo caminho aos roubos do grupo. A dissimulação de "Sem Perna" cai-lhe que nem uma luva. E o personagem acaba por suicidar-se, o que pode bem corresponder ao destino profissional que os portugueses cobiçam para Queiróz.

 

Na política, continuamos a cruzar-nos com "capitães da areia". Desta feita, Narciso Miranda dá vida a "João Grande", forte e pouco dado às inteligências, mas defensor dos mais pequenos. Também o ex-militante do PS defende os cerca de 80 militantes de Matosinhos que conheceram igual destino, por participarem na candidatura independente de Narciso àquela Câmara. Teorizando a conspiração, acusou o órgão jurisdicional do PS de reunir às pressas a 5 de Agosto a mando do "chefe", pois estamos num mês mais aborrecido e "há para aí umas notícias de que não convém que se fale tanto". Referia-se a Sócrates, que para Narciso deveria ser seu "camarada capitão", o "professor", rapaz alto, magro e inteligente, o único que sabe ler no grupo? Esta decisão peca por tardia. A arruaça na lota de Matosinhos, a 9 de Junho de 2004, tornou Narciso merecedor da pena. Pena tenho eu que à época a não tenha conhecido.

 

Já "Boa Vida", "Volta Seca" e "Dora" podiam bem ser interpretados por magistrados do Ministério Público, que na sua cruzada contra o PGR - Pinto Monteiro dá um bom "Pirulito" -, vieram defender a eleição do Procurador-Geral pelo MP. O que seria o mesmo que os comerciantes e outros putativos inspeccionados elegessem o Presidente da ASAE.

 

Falta ver se os nossos "Capitães da Areia" são deitados abaixo pela maré, ou se a justiça continua na sua indiferença e, tal como sucedia aos capitães de Jorge Amado, só se preocupa quando alguém realmente importante passa a vítima.

publicado por linhadeconta às 10:00
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